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'Os Engenheiros do Caos' de Giuliano da Empoli: Um olhar crítico



Caos: é assim que o movimento populista global é descrito pelo autor italiano Giuliano da Empoli, no seu livro livro, Os Engenheiros do Caos. A palavra que remete para a ideia de perturbação e desordem, não deixa espaço para dúvidas: mais do que uma investigação, que desvenda os bastidores das grandes figuras da política atual, o leitor encontra aqui uma análise crítica aos modelos populistas que têm vindo a crescer exponencialmente. 


Dividida em seis capítulos, a narrativa mostra os bastidores do "carnaval político" atual, uma metáfora basilar, da qual o autor se serve para argumentar o seu ponto de vista ao longo de todo o escrito.  Antes de se adentrar nos assuntos atuais, Giuliano dá uma breve contextualização daquilo que era, e é, o carnaval e como essa realidade se transfigurou para o cenário político: um tempo simbólico em que se inverte a ordem das coisas — os dominados tornam-se dominadores e os pobres, ricos. Assim sendo, a ascensão dos populismos, tal como no carnaval, tornou-se numa «dança desenfreada que inverte todas as regras» (Cap.I) . No livro, esclarece-se que esta festa, ao longo dos séculos, deixou as ruas e ressurgiu na sátira e na Internet, compondo o novo paradigma da política global. Com isto, Giuliano quer mostrar, através de uma linguagem que acredita ser cativante, que a ascensão dos populismos acontece porque há sempre quem puxe os cordelinhos da marioneta: os engenheiros do caos.


“Os verdadeiros estrategas não são aqueles que dão a cara; estão por trás”, aponta Francisco de Araújo, assistente convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e fundador do Projeto Independente de Responsabilidade Cívica, Os 230. São as mentes brilhantes que escolhem um fato como fachada - tal como o Waldo, personagem principal do capítulo 3 -, e que fazem com que os populistas cheguem às pessoas como um “bobo da corte”, o qual demove a população a acreditar nas barbaridades que apregoam.


“Os verdadeiros estrategas não são aqueles que dão a cara, estão por trás, e têm um pensamento mais planeado e se calhar menos explosivo do que as pessoas que têm mais capacidade retórica, e que acabam por ser utilizadas para dar a cara” - Francisco de Araújo

Os movimentos populistas desgastam a moderação, exigindo a escolha de um lado: se não estão com eles, então estão contra eles. Por sua vez, o fundador d’Os 230 explica que os populistas não só tentam afirmar que o seu discurso é o correto, como também se apresentam como os únicos capazes de responder às verdadeiras necessidades do povo.


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Francisco Cordeiro de Araújo, fundador do Projeto 230

O livro torna evidente a mudança no paradigma político, que coincide com a ascensão de Donald Trump, o 45º. Presidente dos Estados Unidos. A partir daqui, a forma como se ganha ou se perde poder altera-se, deixando de haver espaço para a política tradicional, agora substituída por novas regras: “Se antigamente o jogo político consistia em afinar uma mensagem que unia, hoje em dia para se conquistar uma maioria, já não é preciso convergir para o centro, mas adicionar extremos” (Cap. VI).  No fundo, ao contrário da política tradicional, que aspirava à coerência e à verdade, o populismo atual prospera na ambiguidade, no ruído e nas narrativas conspiratórias.


Donald Trump e Steve Bannon
Donald Trump e Steve Bannon

Por trás, está o trabalho dos “engenheiros do caos”, estrategas e spin doctors - responsáveis pelo “mundo às avessas” -, que longe da esfera pública, operam  num campo intermédio, onde as novas tecnologias, a lógica de marketing emocional, a big data, a segmentação e personalização de mensagens unem-se na mobilização do debate. Neste contexto, a Internet torna-se “um instrumento de controlo” e  “vetor da revolução”, onde são discutidos os temas mais calorosos. Neste espaço, cujo potencial para revolucionar a política já havia sido previsto por Gianroberto Casaleggio, as forças de raiva e de desconfiança perante as elites políticas tradicionais - acusadas de trair o mandato popular - reorganizam-se e exprimem-se.


Na realidade, foi perante a rapidez com que os nossos desejos começaram a ser satisfeitos com um click, que os “engenheiros do caos” tiveram de “reinventar uma propaganda adaptada à era das selfies”, desta vez “sem nenhum tipo de intermediação e com um único parâmetro de julgamento: os likes” (Cap.II). Não há espaço para dúvidas que o importante não são os conteúdos em si, mas a participação que estes geram nas redes o que, no universo político, resulta na adesão imediata às posições políticas que tanto poderão ser, nas palavras imparciais do autor, “razoáveis ou absurdas”, “realistas ou intergalácticas”. Esta dinâmica, aliada à arquitetura dos espaços digitais, possibilita o envio massivo de mensagens personalizadas  que, mesmo com discursos antagónicos, podem coexistir paralelamente, sem se encontrarem. Francisco de Araújo, tal como da Empoli, está certo de que com as redes sociais é possível perceber "exatamente os interesses das pessoas; o que pensam e a que tipo de assunto seriam mais sensíveis".


Não é ao acaso que, no sexto capítulo, "Os físicos", o autor aprofunda como a Internet e as redes sociais tornaram mensuráveis os hábitos, preferências e emoções das massas.  Conforme os estudos citados, como “How He Used Facebook To Win” do The New York Review of Books, percebe-se que se enviaram dezenas de milhares de mensagens personalizadas com base nas características individuais, via Facebook. Isto permitiu que os argumentos mais controversos fossem dirigidos àqueles que são sensíveis a eles, sem correr o risco de perder o apoio de outros eleitores que pensassem de forma distinta. Contudo, a expectativa de compreender melhor as engrenagens tecnológicas por detrás de tais algoritmos, deixa a investigação um pouco aquém, tendo em conta que não são esclarecidas em nenhum capítulo.

 

Francisco de Araújo concorda com o autor no que toca ao reconhecimento da inteligência estratégica, visão disruptiva e capacidade de leitura do momento histórico necessárias aos engenheiros do caos. No livro menciona-se que estes perceberam “antes dos outros que a raiva é uma enorme fonte de energia colossal” e que, ao compreenderem os códigos e ao dominarem a tecnologia, poderiam usá-la para alcançar qualquer objetivo. 


Foram estes engenheiros que “compreenderam antes dos outros que a raiva era uma fonte de energia colossal e que era possível explorá-la para alcançar qualquer objetivo, desde que se compreendessem os códigos e se dominasse a tecnologia” - Giuliano da Empoli, Cap. III



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Francisco Cordeiro de Araújo, fundador do Projeto 230


Ainda assim, num ambiente digital saturado por plataformas de redistribuição de informação, desde as redes sociais até aos mais diversos sites e blogues, como é o caso do Beppe Grillo Blogue - um dos casos aprofundados para a melhor compreensão do sucesso do Movimento 5 Estrelas, na Itália -, a desinformação torna-se um meio cada vez mais evidente para a manipulação e ameaça à democracia. Segundo Joan Donovan, diretora de pesquisa do Centro Shorenstein sobre Media, Política e Políticas Públicas da Harvard Kennedy School, o atual mercado da comunicação social funciona com base num “mercado económico de algoritmo”, onde a atenção dos leitores é cedida ao controlo dos diversos sites, como o YouTube, Facebook e Twitter, que facilitam a proliferação da desinformação. Estamos perante uma das armas políticas mais perigosas dos dias de hoje, capaz de influenciar as campanhas mediáticas e o diálogo entre os utilizadores: as fake news; uma realidade que a par das teorias de conspiração funciona bem nas redes sociais, já que catalisa, nas palavras da Empoli, “emoções fortes, polémicas, indignação, raiva”.


Esta arma política ganha força após 2008 - ano em que Barack Obama é eleito presidente-, fazendo parecer que os problemas raciais tinham sido resolvidos. Contudo, como explica bem o livro, nem tudo é o que parece, já que, esta eleição marcou o início do percurso de Trump à presidência. Ainda assim, era necessário uma audiência que se mobilizasse a seu favor; algo que só conseguiu com a ajuda de Steve Bannon -, por saber movimentar-se na Internet, reconheceu o potencial dos fóruns caracterizados pela libertinagem e crueldade; um espírito aparentemente indomável que parecia estar desaparecido face ao discurso do politically correct estabelecido e imposto pelos media tradicionais. Foi então que, um exército de trolls na Internet , especialmente de gamers irritados com os supostos movimentos woke, foi descoberto por Bannon, Yannopoulos e Breitbart, os quais exploraram os sentimentos de raiva, à semelhança do Movimento 5 Estrelas na Itália, de forma a canalizá-los para um propósito: a eleição de Trump.


De qualquer modo, o exemplo mais recente de como a raiva e as fake news mobilizam discursos, foi o ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021. 


O movimento, que começou por ser online, rapidamente  se deslocou para as ruas, pressionando os utilizadores a não reconhecerem a eleição e a acreditarem que o sistema era uma farsa. Tudo se baseava nas teorias de conspiração alimentadas pelo próprio Trump nas redes sociais, que mesmo antes das eleições, já se faziam ouvir. Subjacente está a ideia de que estamos perante uma era de desintermediação a passo que os media tradicionais perdem a sua importância, sobretudo agora que, com a ajuda dos algoritmos criados pelos engenheiros do caos, as figuras políticas conseguem falar diretamente aos leitores, por meio das redes sociais e dos próprios sites, sem o escrutínio típico do jornalismo. É disto que Francisco Araújo, fundador d’Os 230, se refere ao dizer que os estrategas e, os próprios políticos, começam a perceber as novas formas de comunicação e a importância de estar presente nas redes. “Recordo-me que há dois anos, no Parlamento Europeu, estávamos a falar sobre a proibição do Tiktok, mas, passado um ano, o Parlamento Europeu, por exemplo, criou uma conta, porque reconheceram algo evidente. Se nós não estamos presentes, outros  estarão”, constata. A par disso, “os políticos quase que se tornam influencers”, ao perceberem a potencialidade das redes sociais e de uma comunicação mais direta com o público, através da qual podem ganhar mais seguidores e apoiantes, com o apelo às emoções primárias, à raiva e à cólera sentidas.



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Francisco Cordeiro Araújo, fundador do Projeto 230


É curioso, no entanto, perceber que ora em tom de denúncia, ora em modo tom de consciencialização, o autor desmistifica o ditado popular “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Nos Engenheiros do Caos, o leitor é levado a reconhecer que os estrategas e as próprias figuras populistas agem de forma semelhante, através da Internet. Aqui, não se impõem barreiras entre os revoltados e os revoltosos. Face a isto, agora é mais fácil do que nunca que os “príncipes” do movimento populista mundial apliquem todos o mesmo princípio de Trump - “never be boring”-, numa espécie de peça de teatro em que as personagens inspiram-se umas nas outras. Não é por acaso que Beppe Grillo, o rosto do Movimento 5 Estrelas, à semelhança do Trump, com o Movimento MAGA, chegou ao poder graças a Gianroberto Casaleggio. Segundo o presidente d’Os 230, isto não acontece por acaso, já que “os países próximos, de alguma forma, sentem os seus sistemas políticos, inspirando-se uns nos outros”, porque são de facto influenciados pela geografia e pela história. “O que é que nós temos ultimamente? Nós, neste momento, já não temos só uma influência regional. Temos uma influência global, mais transversal que se gera muito mais rapidamente”, conclui.




É nesta ótica que se revelam aqueles que operam  nas sombras e que, com isso, têm mão no ambiente político atual. O livro apresenta figuras que, com as novas tecnologias, tentam de tudo para pôr em causa aquilo que é tido como garantido: a democracia. 

É uma obra feita para o pensamento, com diferentes camadas, marcadas por um tom que, podendo ser sarcástico, irónico ou cómico, que acentua a intertextualidade com outras investigações, por vezes ligadas à cultura cinematográfica.


Ainda assim, tendo em conta o tema denso, o estilo de escrita por vezes pretensioso, a utilização de comparações e metáforas resulta numa obra que nem todos os leitores vão conseguir apreciar. Porém, a obra destaca-se pela forma como leva o leitor a repensar a política: verdade vs. mentira e razão vs. emoção. Ao revelar os bastidores do populismo digital, da Empoli convida os leitores a deixarem de ser meros consumidores de informação e a tornarem-se cidadãos ativos, atentos e exigentes.


A sua tese é clara: enquanto os liberais e democratas discutem no plano da ética e da teoria, os engenheiros do caos operam com eficácia por trás dos  algoritmos. Ignorá-los ou subestimá-los é um luxo que a democracia já não consegue sustentar.



 
 
 

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